| Mais um dia de trabalho |
| Até parece robotizado |
| Só há emoções nas multidões |
| Se o trem vem atrasado |
| Cabisbaixo |
| E um mundo ensonado |
| Desde quem vai limpar o chão |
| Até ao engravatado a bulir para o estado |
| Tu vês o estado do país em cada cabiz trancado |
| Gente que 'tá por um triz |
| Que por isto tinha bazado |
| Mas tá visto que nosso povo insiste |
| Vivendo o sonho errado |
| Não se desiste só porque o teu trabalho |
| Não é do teu agrado |
| A pensar no agregado |
| Motivação é medo |
| Ou motivas-te p’ro trabalho |
| Ou vais p’ra fila do desemprego |
| Então passa cada estação |
| Aí passa mas fiscal |
| De maquineta na palma da mão |
| A ver quem sai multado |
| Mas não é desta |
| Ajeito mala e noto quantos são |
| De movimentos repetidos a sair da minha estação |
| Uns apressados, stressados |
| A ver se o autocarro vem |
| Porque a vida são 2 dias |
| E no bules tu passas 100 nigga |
| Logo chego na facul |
| A esperança é realeza |
| Os que estudam p’ra grandes cargos |
| E os que vão servir a mesa |
| Mas não sabem |
| Ninguém sabe é tudo ao Deus dará |
| Por isso uns estão na biblioteca |
| Outros em ganzas toda manhã |
| Vira tudo minucioso |
| Num ciclo tão vicioso |
| Num cubículo preenchendo |
| Currículo quase invejoso |
| Mas esse quase |
| Não te vai passar à frente |
| De tanta gente que é influente |
| Mas só estatisticamente |
| Então arranjas mais um bules de merda |
| Das 8 às vinte |
| Todos os dias horas extras |
| Só te pagam |
| Das 8 às 5 |
| Mas em que merda de país é que trabalhas |
| Das 8 às vinte |
| E enchutam-te regras |
| Que apagas no vinho tinto |
| E eu sinto essa frustração |
| Quando passa cada estação |
| E vejo fiscal de cabiz mal |
| E maquineta na mão |
| Desta vez eu sou culpado |
| Multado sem profissão |
| Humilhado porque viver sem bules |
| Deixa essa sensação |
| Não é por amor é tudo pela guita |
| Se não trabalhas 'tás um parasita |
| Olham-te as falhas então para evita |
| E se dinheiro não motiva |
| Então nada excita |
| Para e pensa se compensa bem |
| Ter a dispensa cheia e viver bem |
| Só és alguém com bote que sorte |
| Então sustenta o trabalho |
| Até chegar a morte |